Dormir mal pode matar

Want create site? Find Free WordPress Themes and plugins.

Presidente da Federação Mundial do Sono, o neurologista americano afirma que a má qualidade do sono aumenta o risco de infarto, obesidade e diabetes. E pode atrapalhar o desenvolvimento mental de crianças e adolescentes

por Wilson Aquino

ALERTA
Kushida orienta as pessoas a se afastarem dos remédios 
para dormir por causa do risco de dependência

Noites mal dormidas podem causar obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares e até levar à morte. O alerta é de uma das maiores autoridades mundiais no assunto, o neurologista americano Clete Kushida, 56 anos, presidente da Federação Mundial do Sono e professor de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade de Stanford, na Califórnia, nos Estados Unidos. Ele também dirige o Centro de Medicina do Sono da instituição americana. Considerando que os maus hábitos, a luz artificial e cerca de 80 transtornos do sono estão fazendo com que a humanidade durma cada vez menos, a situação é preocupante. Kushida esteve no Rio de Janeiro para participar do XIV Congresso Brasileiro do Sono e conversou com ISTOÉ. Segundo ele, crianças e adolescentes formam o grupo que mais sofre com a falta de sono adequado, porque podem ter seu desenvolvimento físico e mental comprometido pelas noites mal dormidas. Ele ainda condena uma das práticas mais comuns na sociedade moderna: apelar para remédios que ajudam a dormir.

“Se a pessoa tiver sonolência durante o dia, a quantidade ou 
a qualidade do sono não estão sendo suficientes. Nesses 
casos é preciso se submeter a uma avaliação médica”

“O indivíduo que dorme mal acaba comendo mais do 
que deveria e acumula gordura e glicose no organismo”

Fotos: Orestes Locatel; Roman Märzinger/Westend61/Corbis

 

ISTOÉ –

A má qualidade do sono pode levar à morte?

CLETE KUSHIDA –

Sim. Existem estudos que mostram que pacientes com apneia obstrutiva do sono (as vias aéreas superiores se afunilam enquanto a pessoa dorme e obstruem a passagem de ar) correm mais risco de mortalidade por ataques cardíacos. A apneia do sono causa uma deformação nas células dos vasos sanguíneos, que aumenta o risco de formação de coágulos. Isso pode levar a infartos e a outros problemas cardiovasculares, como o acidente vascular cerebral (AVC). Várias pesquisas comprovam a relação muito forte entre a apneia do sono e a hipertensão por causa da baixa oxigenação, o que acaba também afetando o coração.

ISTOÉ –

A pessoa dorme mal porque não consegue respirar direito?

CLETE KUSHIDA –

Correto. Ela não consegue dormir a noite toda. Cerca de 25% dos homens e 10% das mulheres entre 30 e 60 anos têm apneia do sono. O ronco é um dos sintomas mais visíveis desse problema.

ISTOÉ –

Por que isso acontece?

CLETE KUSHIDA –

As principais causas são o Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 25, que indica sobrepeso, ou algum problema craniofacial que atrapalha fisiologicamente a passagem do ar e o controle da ventilação, que é feito pelo cérebro. Em resumo, é um problema estrutural.

ISTOÉ –

A pessoa que ronca não está dormindo profundamente?

CLETE KUSHIDA –

Pelo contrário. Quem ronca não pode estar dormindo bem, porque o ronco significa que existe alguma resistência para a entrada do ar nas vias respiratórias – o ronco é produzido pela vibração dos tecidos que estão no caminho da entrada do ar. Estudos indicam que uma das complicações disso é a hipertensão. Acordar com a boca seca, ter suor noturno ou dor de cabeça matinal são outros sintomas de que não se está dormindo bem.

ISTOÉ –

Quais são os tratamentos para a apneia do sono?

CLETE KUSHIDA –

O tratamento mais indicado é o uso de Cpaps (sigla em inglês de Continuous Positive Airway Pressure, ou pressão positiva contínua na via aérea), um gerador de fluxo que, por meio de uma máscara nasal, fornece uma pressão de ar suplementar para manter a via aérea desobstruída enquanto a pessoa dorme. Terapia e cirurgia também podem ser indicados de acordo com cada caso.

ISTOÉ –

Dormir mal também pode levar à obesidade?

CLETE KUSHIDA –

Pode, porque afeta a produção de dois hormônios: leptina e grelina, que agem no sistema nervoso central e estão envolvidos no controle do apetite e da saciedade. A leptina incrementa o metabolismo da glicose. A grelina dispara a sensação de fome. O resultado é que a pessoa que dorme mal acaba comendo mais do que deveria e acumula gordura e glicose no organismo.

ISTOÉ –

Daí a associação entre o sono e o diabetes?

CLETE KUSHIDA –

Exatamente. Dormir mal pode ​​levar ao diabetes da mesma maneira que pode tornar a pessoa obesa. Além disso, pesquisas comprovam que o diabético que dorme mal tem maior resistência à insulina, o hormônio que permite a entrada nas células da glicose que está circulando no sangue. Dormir mal pode engordar e matar.

ISTOÉ –

Por que as pessoas estão dormindo menos?

CLETE KUSHIDA –

Por causa das responsabilidades, compromissos de trabalho e de família. O ser humano passou a dormir menos desde a invenção da lâmpada (1879). A iluminação artificial cada vez mais transforma noites em dia e acaba alterando os hábitos da humanidade e desregulando nosso organismo.

ISTOÉ –

Isso está acontecendo com todas as pessoas ou atinge mais um grupo em particular?

CLETE KUSHIDA –

Todas. No entanto, o grupo mais afetado são os jovens. Crianças e adolescentes têm um agravante, porque não deveriam atrasar seu sono. Se eles estão dormindo à meia-noite e acordando às 7 horas para a escola, não conseguem ter o sono necessário. O jovem precisa dormir dez horas diárias.

ISTOÉ –

Qual é o papel do computador e da televisão nessa piora na quantidade e na qualidade do sono registrada na atualidade?

CLETE KUSHIDA –

Esses dois aparelhos só atrapalham o sono. O fato de as pessoas usarem computador e assistirem à televisão não é bom para o sono porque, em vez de ajudar a adormecer, a sentir sono, pode deixar o indivíduo acordado por mais tempo. Quem tem dificuldade para dormir não deve usar computador nem televisão duas horas antes de se deitar. Existe controvérsia, mas a luz azul do computador pode alterar o nosso ritmo circadiano (relógio biológico) e retardar o sono.

ISTOÉ –

Dormir mal prejudica o desenvolvimento da criança?

CLETE KUSHIDA –

Acredito que sim. O problema é que o hormônio do crescimento é criado no primeiro terço da noite. Então, se a criança não dorme profundamente nesse momento, não consegue produzir a substância. Essa é a mesma coisa que acontece com quem tem apneia. Acordar muitas vezes durante a noite também reduz a quantidade de hormônio do crescimento. O que sabemos é que as crianças que manifestam apneia do sono, quando são tratadas desse mal, apresentam um aumento na taxa de crescimento muito grande. Pesquisas indicam também que o distúrbio no sono pode causar dificuldade de memória e concentração, mudanças de humor e sonolência diurna. Tudo isso atrapalha o desenvolvimento intelectual e cognitivo.

ISTOÉ –

Distúrbio de sono compromete o desempenho sexual?

CLETE KUSHIDA –

Existe uma relação entre apneia do sono e impotência. A apneia pode provocar acúmulo de gorduras nos vasos sanguíneos, entupindo esses canais. Isso pode levar à impotência masculina ou reduzir o desejo sexual do homem.

ISTOÉ –

O que se pode fazer para dormir direito?

CLETE KUSHIDA –

Manter disciplina de horários. Ou seja: ter hora para adormecer e para acordar. Evitar luz forte e não consumir nicotina e estimulantes duas horas antes de se deitar. E se estiver demorando a pegar no sono ou despertar durante a madrugada, não fique “fritando” na cama por mais de 20 minutos. Levante, saia do quarto e vá fazer alguma atividade que lhe deixe sonolento, como ler um livro com uma luz leve – desde que seu enredo não provoque muita adrenalina –, meditar, enfim, qualquer atividade relaxante.

ISTOÉ –

Muita gente acredita que ingerir bebida alcoólica leva ao sono. Isso é verdade?

CLETE KUSHIDA –

Não. O álcool pode causar efeitos tranquilizantes, a pessoa pode dormir mais rapidamente, mas a qualidade do sono é ruim. O álcool tende a relaxar os músculos das vias aéreas superiores, de modo que, se uma pessoa tem um distúrbio respiratório relacionado ao sono, o álcool pode agravar essa condição e causar mais perturbações.

ISTOÉ –

Como saber se estamos dormindo bem?

CLETE KUSHIDA –

Se não tiver sonolência diurna, você está dormindo bem. Se tiver, a quantidade ou a qualidade do sono não estão sendo suficientes. Nesses casos é preciso se submeter a uma avaliação médica para investigar as causas do problema.

ISTOÉ –

Existe um período ideal para dormir?

CLETE KUSHIDA –

Isso varia de idade e de pessoa para pessoa, mas três estudos epidemiológicos demonstram que dormir menos de quatro horas aumenta o índice de mortalidade. Há indivíduos que com poucas horas de sono se sentem bem, são os curto dormidores. Existem também os longo dormidores, que precisam de nove horas de sono. A recomendação geral é de oito horas, mas os adolescentes, por exemplo, necessitam dormir mais tempo. As crianças recém-nascidas costumam dormir de 16 a 18 horas e conseguem dormir o sono REM (etapa mais profunda do sono). Nesse período, a pessoa descansa realmente e as informações são consolidadas na memória.

ISTOÉ –

Na medida em que se envelhece, a necessidade de sono diminui?

CLETE KUSHIDA –

Sim. As alterações do sono chegam com a idade. Quando você vai envelhecendo, além de dormir menos, desperta no meio da noite com mais frequência.

ISTOÉ –

Existe posição ideal para dormir?

CLETE KUSHIDA –

O melhor é dormir de lado com um travesseiro entre as pernas, porque mantém a curvatura da espinha e deixa a pessoa mais confortável. É bom evitar dormir de barriga para cima, porque a gravidade puxa a língua para trás e pode obstruir a passagem de ar.

ISTOÉ –

Remédios para dormir são indicados?

CLETE KUSHIDA –

O ideal é se afastar dos medicamentos para dormir, porque as pessoas se tornam dependentes dessas medicações.

Clete Kushida

Did you find apk for android? You can find new Free Android Games and apps.